quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Da Vila de Alhandra e dos nomes

“Da Vila de Alhandra”
Mapa hipotético das margens do Rio Tejo entre Santarém e Alverca nos séculos XIV e XV


Quatro léguas ao nascente da vila de Torres Vedras, e cinco ao nor-nordeste de Lisboa, em lugar baixo, está fundada a vila de Alhandra, que D. Soeiro, bispo de Lisboa mandou povoar pelo ano de 1203, o qual lhe deu foral com grandes privilégios [porventura tão grandes para os donatários que o povo oprimido se queixou dos vexames, até que em 11 de Janeiro de 1480, o Cardeal D. Jorge da Costa fez com o senado da Câmara da Vila uma escritura, em que se restringiam e delimitavam as exageradas prerrogativas dos arcebispos - http://www.alhandra.net/], reinando em Portugal D. Sancho o primeiro. É banhada do rio Tejo, que a faz abundante de excelente peixe, especialmente as azevias, e é fértil de todos os frutos. Tem seiscentos e cinquenta vizinhos com uma paróquia dedicada a S. João Baptista, vigararia, que apresentam os Arcebispos de Lisboa, Casa de Misericórdia, Hospital e estas ermidas: Nossa Senhora da Ajuda, Nossa Senhora da Graça e Nossa Senhora da Guia.
É esta vila dos Arcebispos de Lisboa, aonde têm seu ouvidor, vereadores, escrivão da Câmara, um Procurador do concelho, Juiz dos Órfãos com seu escrivão, e mais oficiais. O seu termo tem estes lugares: Suserra com muitas quintas nobres, particularmente a de Pedro de Rochas de Azevedo, a qual tem uma ermida de São José de excelente arquitectura; a Deloucos [A-de-Loucos] com uma Igreja Paroquial, orago de São João dos Montes, com vigário e coadjutor; rende a vigararia trezentos mil réis, tem quinhentos e cinquenta vizinhos; a outra freguesia deste termo é da invocação de São Marcos de Calhandris [hoje Calhandriz], curado, e tem cem vizinhos. Estas duas freguesias estão no termo de Lisboa.”

Esta é uma leitura pessoal da referência a Alhandra num notável resumo de informações dos princípios do século XVIII: a Corografia [descrição geográfica de um território particular ou país com as suas características mais notáveis] portuguesa e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, com as notícias das fundações das cidades, vilas e lugares, que contem: varões ilustres, genealogias das familias nobres, fundações de conventos, catálogo dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edificios & outras curiosas observaçoens, Tomo III offerecido á sereníssima senhora D. Marianna de Áustria, rainha de Portugal. Author o P. António Carvalho da Costa, clerigo do habito de S. Pedro, Matemático, natural de Lisboa. Segunda edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, Rua Nova, n.º 65, 1869. A 1ª edição tem a dedicatória pessoal do autor à Rainha D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V e futura mãe de D. José, assinada a 15 de Janeiro de 1712 (mais de 150 anos antes da 2ª edição). Os desenhos floreados usados como separador são de mesmo documento.

Os nomes das coisas

Embora Alhandra me traga outras memórias como as Linhas de Torres Vedras construídas há 200 anos para travar a caminhada para Lisboa dos exércitos de Napoleão (foi o limite direito da 1ª Linha fortificada) o que despertou estes apontamentos foi a frase “É banhada do Rio Tejo que a faz abundante de excelente peixe, especialmente as azevias…”
Azevia é nome de doce tradicional da época de Natal e de Ano Novo em que o recheio tem grão de bico… mas aqui
apesar de o local ficar à beira Tejo, a Azevia é variedade de peixe do mar, da família das solhas (Solha lusitana na imagem de http://www.eol.org/),


que se encontra nas costas do Mar Mediterrâneo e do Oceano Atlântico entre as costas de Portugal, na Europa, e do Senegal, em África, mas que se adaptou a zonas com menos sal como o estuário dos rios que as marés diariamente renovam; assenta sobre o lado esquerdo em fundos calmos até cerca de 300 metros, tomando uma forma lisa ou achatada onde atinge os 30 a 40 cm ao mesmo tempo que o olho esquerdo migra para se juntar ao direito no lado superior. O Rio Tejo reúne condições que permitem a entrada e renovação da água salgada do mar muitos quilómetros para dentro da boca e por outro lado é também um meio de comunicação estimulante para o comércio e o transporte de pessoas e bens, sobretudo para mercados desde Santarém à capital.
Uma inventariação de 1552 do total de 1490 barcos e batéis que servem Lisboa a partir dos portos ao longo do rio desde Abrantes, refere que a localidades "Povos, Vila Franca de Xira e Alhandra" possuíam 60 (ver História de Portugal, volume 3, sob a direcção de José Mattoso, editada em 1993 pelo Círculo de Leitores, p. 334).
As azevias estão identificadas há muitos séculos e a pesca para os mercados de frescos como o da Ribeira Velha, em Lisboa, fazia-se nos estuários do Tejo e Sado.

Pormenor das bancadas do peixe fresco no mercado da Ribeira Velha, frente à Casa dos Bicos, num painel de azulejos do século XVIII (Arquivo particular de Marina Tavares Dias)
A azevia pode ser pescada usando apenas minhoca como isco mas há documentos que mostram que desde a Idade Média a maior parte era apanhada com redes de tresmalho e de emalhar.
Podemos imaginar uma cena semelhante neste pormenor do Breviário da Condessa de Bertiandos, um belíssimo códice manuscrito iluminado português, do século XVI, oferecido à Academia das Ciências de Lisboa pela Condessa de Bertiandos, em 1933, e Bertiandos é uma pequena freguesia do Concelho de Ponte de Lima. Para a conservação do peixe por mais tempo usavam-se técnicas ainda hoje muito importantes: fumagem, secagem e salga.
Manuela Catarino recorda mentalidades do séculos XIV e XV: “Enquanto a caça cria um laço com a morte e é, desde logo masculina e viril, a pesca, mais ligada à água, fonte de vida e elemento feminino, é uma anticaça desprezada, no geral, pela nobreza.” (citando Mª Helena C. Coelho) e acrescenta: “Ao longo da Idade Média, as normas, mais ou menos restritivas que a religião impõe sobre o consumo alimentar, contribuem para a generalização de padrões de conduta, em que “comer magro” equivale a “comer peixe”. A não ingestão de carne, como acto de penitência, segundo os dias do calendário religioso implica o consumo de “substitutos”. Ganham, então, preponderância, os legumes, o queijo, os ovos e, claro, o peixe.” E, para mostrar o grande valor que a pesca fluvial tinha para a vida das populações e a economia daqueles tempos, refere como exemplo os privilégios concedidos aos pescadores de Alhandra e Vila Franca. E conta como quando o rei Afonso V permaneceu em Santarém a sua preferência foi para quatro variedades de peixe – azevia, linguado, linguada e salmonetes -. “E por algumas moedas, alguém lhes tirou as escamas [tarefa de mulheres, as escamadeiras], preparando-os para o trajecto [acondicionados em canastas, seiras, golpelhas, cordas] em azémolas ou em barcas, até à cozinha régia.” Estas deliciosas e saborosas linhas encontram-se na dissertação da minha amiga Maria Manuela Catarino, (2000), Na margem direita do Baixo Tejo, paisagem rural e recursos alimentares (sécs. XIV e XV), Cascais, Ed. Patrimonia, entre as páginas 125 e 131; o mapa hipotético das margens do Rio Tejo entre Santarém e Alverca nos séculos XIV e XV está na página 20.
Pormenor de azulejos com peixes numa das paredes na cozinha do Museu do Azulejo, no antigo Convento da Madre de Deus, em Lisboa, onde eu imagino uma azevia com os dois olhinhos ao cimo da cabeça, mas pode ser solha; porque não? É de família.
E para concluir esta viagem à volta de Alhandra, do Tejo (e negando as palavras de Alberto Caeiro no poema “Guardador de Rebanhos” afirmo que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia porque o Tejo é o rio que corre pela minha aldeia) e da Azevia falta-me acrescentar que o nome científico deste peixe do mar – Microchirus Azevia (Brito Capello, 1867) [ver a espécie de índice da classificação internacional dos seres vivos em EOL - Encyclopedia of life - http://www.eol.org/] – só foi classificado no século XIX pelo naturalista e biólogo marinho português Félix António de Brito Capelo (1828-1879) que nasceu, como os seus irmãos, e deles o mais conhecido é o Oficial da Marinha Hermenegildo Carlos de Brito Capello (1841-1917), no Castelo de Palmela onde seu pai era comandante.
O ano oficial da classificação da Azevia ficou assinalado como 1867 pois foi então que Félix António de Brito Capello publicou o “Catálogo dos peixes de Portugal que existem no Museu de Lisboa” em 2 artigos sucessivos do periódico da Academia das Ciências de Lisboa – Jornal do Sciências Mathemáticas, Physicas e Naturaes -, Lisboa, 1867, v. 1 (n.º 3, de Agosto), nas páginas 233 a 264 e que continua e conclui no número seguinte: v. 1 (n.º 4, de Dezembro), páginas: 307 a 313. Como tive acesso privilegiado a uma investigação ainda inédita de Catarina Madruga posso acrescentar o seguinte: O Museu a que se refere era o Museu de Lisboa da Escola Politécnica (que até 1858 estivera sob a tutela da Academia das Ciências de Lisboa) onde Brito Capello colaborou com o zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907). Em sua homenagem e por proposta do Conselho da Escola Politécnica a secção zoológica passou designar-se Museu José Vicente Barbosa du Bocage em 1905. O Anuário Comercial para 1910 identifica dezassete museus na cidade de Lisboa mas informa que o Museu Barbosa du Bocage é um dos que só abrem às quintas-feiras (porque era o dia da semana em que estes espaços não eram usados para as aulas práticas; um século antes já o Jardim Botânico da Ajuda, sob a tutela do Paço Real da Ajuda também abria ao público só às quintas-feiras) [cfr. Nova História de Portugal, XI, p 581]. Em 1912 passa a integrar, como um dos seus departamentos, o Museu Nacional de História Natural da recém-criada Universidade de Lisboa. Sofreu perdas muito significativas do grande incêndio na noite de 17 para 18 de Março de 1978. O MNHN, juntamente com o Museu da Ciência (criado em 1985), integram o projecto do Complexo Museológico da Politécnica ou "Museus da Politécnica".

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Substantivos

É sempre agradável saber para mais tarde recordar e mais ainda quando se constata que o mundo já estava a mudar muito antes de eu nascer.
Eis o que encontrei num notável (pela clareza da apresentação e descrição metódica que alia o conhecimento abstracto à prática e experimentação) manual escolar ilustrado para a V Classe do “ensino secundário oficial”:
Em 1931 o gás dos pântanos que já existia há milhões de anos e continuará a existir dizia-se e escrevia-se a metana ou a formena …
em 1951 já era o metano ou o formeno como ainda hoje asseguram os dicionários.

A imagem do texto é do livro Elementos de Química do professor Achilles Machado da Faculdade de Ciências de Lisboa, editado em Lisboa pela Imprensa Nacional, em 1931, na página 334, quando inicia o estudo do capítulo da Química que trata dos compostos orgânicos “que são, por exemplo, pouco resistentes à acção do calor, ao contrário com o que sucede a um grande número de compostos minerais”. E introduz o assunto situando-o: “como todas as substâncias orgânicas têm um elemento em comum, o carbono, também se pode dizer que o objecto da Química Orgânica é o estudo dos compostos do carbono.” [Os termos em itálico estão assim também no documento original]