quarta-feira, 9 de março de 2016
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Os dias da Semana
Como saber que dia da semana é uma data do século XX ou XXI
Provavelmente haverá mil maneiras, ... mas
uma maneira simples de encontrar o dia da semana para qualquer data do século XX e / ou do século XXI é a seguinte:
A. Somar os seguintes números inteiros:
1. O número do ano,
2. O número de dias bissextos já passados desde o início do século
4. O número do mês relacionado com a semana pela seguinte tabela:
B. Dividir o total por 7 e o resto indica o dia da semana numa das tabelas seguintes:
Provavelmente haverá mil maneiras, ... mas
uma maneira simples de encontrar o dia da semana para qualquer data do século XX e / ou do século XXI é a seguinte:
A. Somar os seguintes números inteiros:
1. O número do ano,
2. O número de dias bissextos já passados desde o início do século
(só se conta 1 dia depois de 29 de fevereiro),
3. O número do dia do mês,4. O número do mês relacionado com a semana pela seguinte tabela:
Janeiro
|
0
|
Fevereiro
|
3
|
Março
|
3
|
Abril
|
6
|
Maio
|
1
|
Junho
|
4
|
Julho
|
6
|
Agosto
|
2
|
Setembro
|
5
|
Outubro
|
0
|
Novembro
|
3
|
Dezembro
|
5
|
B. Dividir o total por 7 e o resto indica o dia da semana numa das tabelas seguintes:
C. Tabela do século XX:
Domingo
|
0
|
Segunda-feira
|
1
|
Terça-feira
|
2
|
Quarta-feira
|
3
|
Quinta-feira
|
4
|
Sexta-feira
|
5
|
Sábado
|
6
|
D. Tabela para o século XXI:
Domingo
|
1
|
Segunda-feira
|
2
|
Terça-feira
|
3
|
Quarta-feira
|
4
|
Quinta-feira
|
5
|
Sexta-feira
|
6
|
Sábado
|
0
|
Exemplo 1:
Que dia da semana foi 25 de abril de 1974?
A. Soma de 74 (ano) + 18 (bissextos) + 25 (dia) + 6 (mês) = 123
B. Divisão de 123 por 7, dá resto 4, portanto foi uma quinta-feira.
Exemplo 2:
Que dia da semana será a 1 de janeiro de 2016??
A. Soma de 16 + 3 + 1 + 0 = 20
B. Divisão de 21 por 7, dá resto 6, portanto será uma sexta-feira.
(O dia 1 de janeiro está antes do dia bissexto que é 29 de fevereiro!)
Esta curiosidade foi adapatada para o século XXI a partir do modelo apresentado por Alexander
Philip em The
calendar: its history, structure and improvement. Cambridge : University Press, 1921, p. X.
A divisão do tempo em 'semanas' tem milhares de anos.
Aqui deixo uma memória dos dias dos deuses da semana, a imagem de um mosaico romano em Bir Chana, perto da antiga cidade de Ziqua (hoje a cidade tunisina de Zaghouan), e que se encontra no Museu do Bardo, a alguns quilómetros do centro da capital da Tunísia, Tunes.
Entre as dezenas de mosaicos romanos, este está identificado com o título de Mosaico dos dias e do Zodíaco, e terá sido realizado no princípio do século III depois de Cristo. No centro, em recortes hexagonais, estão representadas os 7 deuses associados aos 7 astros: a começar por Saturno, o deus do tempo (ao centro), em 1º plano o Sol, o deus da luz, e pela direita, a Lua, a deusa da noite, Marte, o deus da guerra, Mercúrio, o deus das telecomunicações, Júpiter, o deus da cidade de Roma, termina em Vénus, a deusa da beleza e do amor. A ordem apresentada corresponderia ao que hoje usamos como sábado > domingo > segunda > terça > quarta > quinta > sexta.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Mestre Diogo de Lisboa 1
500 anos
Faz hoje 500 anos que, em Lisboa, na véspera das calendas de dezembro, do ano do criador dos céus de 1515, Mestre Diogo assinava e entregava um libelo, uma defesa acerca da forma correcta de fazer o cálculo das festas móveis do calendário litúrgico cristão.
Era um documento bem escrito, em latim, claro e coerente, de um perito.
O pedido do parecer científico, matemático, astronómico e religioso, chegara através do rei dom Manuel, e este recebera uma carta do papa Leão X solicitando a participação de príncipes, universidades, teólogos e cientistas do mundo cristão, a apresentarem propostas para a reforma do calendário juliano e do calendário cristão então em uso. O V Concílio de Latrão, estava reunido desde 1512 e era uma boa ocasião para aprovar uma boa solução para a questão do calendário com o maior consenso possível.
Qual era a questão?
Quem era Mestre Diogo?
O dia de ano novo de 1515, da era do nascimento
de Cristo, chegou a 25 de dezembro (de 1514 na nossa maneira de contar hoje, pois como então se escrevia da era do nascimento, o ano começava no seu nascimento).
Faz hoje 500 anos que, em Lisboa, na véspera das calendas de dezembro, do ano do criador dos céus de 1515, Mestre Diogo assinava e entregava um libelo, uma defesa acerca da forma correcta de fazer o cálculo das festas móveis do calendário litúrgico cristão.
Era um documento bem escrito, em latim, claro e coerente, de um perito.
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| Um astrónomo a estudar |
1
O pedido do parecer científico, matemático, astronómico e religioso, chegara através do rei dom Manuel, e este recebera uma carta do papa Leão X solicitando a participação de príncipes, universidades, teólogos e cientistas do mundo cristão, a apresentarem propostas para a reforma do calendário juliano e do calendário cristão então em uso. O V Concílio de Latrão, estava reunido desde 1512 e era uma boa ocasião para aprovar uma boa solução para a questão do calendário com o maior consenso possível.
Qual era a questão?
Quem era Mestre Diogo?
Deo in celo tibi autem in mundo
Deus no céu e o rei Manuel neste mundo, a esfera armilar era uma esperança e uma garantia.
In mundo
Capricórnio [12 de dezembro]
Do outro lado do mundo...
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| Xilogravura de autor anónimo, julho de 1515 |
No porto de Goa, a nau Nossa Senhora da Ajuda, prepara-se para a viagem com
destino a Lisboa. Ali estava o rinoceronte enorme, pesado, bem atado ao navio. O comandante Francisco Pereira Coutinho quer garantir uma boa viagem também sem grandes problemas para o "bicho", e o seu tratador indiano Ocem vai também até ao Tejo.
Recebido por Afonso de Albuquerque na troca de
presentes com o Sultão Muzafar II de Cambaia, no reino de Guzarate, o animal não tinha
condições para ficar na cidade.
Neste lado do mundo...
Na Europa ainda ecoavam notícias da magnífica
embaixada do rei de Portugal dom Manuel ao papa Leão X, com as primícias do
Oriente, e com que a cidade de Roma se espantara perante a visão de um elefante
indiano - há mais de mil anos não se via tão grande paquiderme! E já lá vão
mais de 9 meses.
Agora em Lisboa, el-rei prepara uma carta ao Cardeal
dos Quatro Santos Coroados para que interceda junto do papa pela Bula da
Cruzada para este Reino, “por tempo de 3 anos” - uma questão abordada na agenda
diplomática daquela embaixada.
Luís XII de França morreu em Paris a 1 de janeiro de
‘1514’ (pois é, em Paris, o ano ainda é de 1514 porque ali a Era é da Encarnação de Cristo), o dia de ano novo de 1515 só chegará a 25 de março, como na
República de Florença e em Inglaterra e em Roma.
Francisco I é o novo rei.
"Tudo
tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.", palavra do Eclesiastes, filho de
David, rei de Jerusalém [Ec 3:1].
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Da Vila de Alhandra e dos nomes
“Da Vila de Alhandra”
Mapa hipotético das margens do Rio Tejo entre Santarém e Alverca nos séculos XIV e XV

Quatro léguas ao nascente da vila de Torres Vedras, e cinco ao nor-nordeste de Lisboa, em lugar baixo, está fundada a vila de Alhandra, que D. Soeiro, bispo de Lisboa mandou povoar pelo ano de 1203, o qual lhe deu foral com grandes privilégios [porventura tão grandes para os donatários que o povo oprimido se queixou dos vexames, até que em 11 de Janeiro de 1480, o Cardeal D. Jorge da Costa fez com o senado da Câmara da Vila uma escritura, em que se restringiam e delimitavam as exageradas prerrogativas dos arcebispos - http://www.alhandra.net/], reinando em Portugal D. Sancho o primeiro. É banhada do rio Tejo, que a faz abundante de excelente peixe, especialmente as azevias, e é fértil de todos os frutos. Tem seiscentos e cinquenta vizinhos com uma paróquia dedicada a S. João Baptista, vigararia, que apresentam os Arcebispos de Lisboa, Casa de Misericórdia, Hospital e estas ermidas: Nossa Senhora da Ajuda, Nossa Senhora da Graça e Nossa Senhora da Guia.
É esta vila dos Arcebispos de Lisboa, aonde têm seu ouvidor, vereadores, escrivão da Câmara, um Procurador do concelho, Juiz dos Órfãos com seu escrivão, e mais oficiais. O seu termo tem estes lugares: Suserra com muitas quintas nobres, particularmente a de Pedro de Rochas de Azevedo, a qual tem uma ermida de São José de excelente arquitectura; a Deloucos [A-de-Loucos] com uma Igreja Paroquial, orago de São João dos Montes, com vigário e coadjutor; rende a vigararia trezentos mil réis, tem quinhentos e cinquenta vizinhos; a outra freguesia deste termo é da invocação de São Marcos de Calhandris [hoje Calhandriz], curado, e tem cem vizinhos. Estas duas freguesias estão no termo de Lisboa.”
Esta é uma leitura pessoal da referência a Alhandra num notável resumo de informações dos princípios do século XVIII: a Corografia [descrição geográfica de um território particular ou país com as suas características mais notáveis] portuguesa e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, com as notícias das fundações das cidades, vilas e lugares, que contem: varões ilustres, genealogias das familias nobres, fundações de conventos, catálogo dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edificios & outras curiosas observaçoens, Tomo III offerecido á sereníssima senhora D. Marianna de Áustria, rainha de Portugal. Author o P. António Carvalho da Costa, clerigo do habito de S. Pedro, Matemático, natural de Lisboa. Segunda edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, Rua Nova, n.º 65, 1869. A 1ª edição tem a dedicatória pessoal do autor à Rainha D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V e futura mãe de D. José, assinada a 15 de Janeiro de 1712 (mais de 150 anos antes da 2ª edição). Os desenhos floreados usados como separador são de mesmo documento.

Os nomes das coisas
Embora Alhandra me traga outras memórias como as Linhas de Torres Vedras construídas há 200 anos para travar a caminhada para Lisboa dos exércitos de Napoleão (foi o limite direito da 1ª Linha fortificada) o que despertou estes apontamentos foi a frase “É banhada do Rio Tejo que a faz abundante de excelente peixe, especialmente as azevias…”
Azevia é nome de doce tradicional da época de Natal e de Ano Novo em que o recheio tem grão de bico… mas aqui
apesar de o local ficar à beira Tejo, a Azevia é variedade de peixe do mar, da família das solhas (Solha lusitana na imagem de http://www.eol.org/),

Pormenor das bancadas do peixe fresco no mercado da Ribeira Velha, frente à Casa dos Bicos, num painel de azulejos do século XVIII (Arquivo particular de Marina Tavares Dias)
A azevia pode ser pescada usando apenas minhoca como isco mas há documentos que mostram que desde a Idade Média a maior parte era apanhada com redes de tresmalho e de emalhar.
Podemos imaginar uma cena semelhante neste pormenor do Breviário da Condessa de Bertiandos, um belíssimo códice manuscrito iluminado português, do século XVI, oferecido à Academia das Ciências de Lisboa pela Condessa de Bertiandos, em 1933, e Bertiandos é uma pequena freguesia do Concelho de Ponte de Lima.
Para a conservação do peixe por mais tempo usavam-se técnicas ainda hoje muito importantes: fumagem, secagem e salga.
Manuela Catarino recorda mentalidades do séculos XIV e XV: “Enquanto a caça cria um laço com a morte e é, desde logo masculina e viril, a pesca, mais ligada à água, fonte de vida e elemento feminino, é uma anticaça desprezada, no geral, pela nobreza.” (citando Mª Helena C. Coelho) e acrescenta: “Ao longo da Idade Média, as normas, mais ou menos restritivas que a religião impõe sobre o consumo alimentar, contribuem para a generalização de padrões de conduta, em que “comer magro” equivale a “comer peixe”. A não ingestão de carne, como acto de penitência, segundo os dias do calendário religioso implica o consumo de “substitutos”. Ganham, então, preponderância, os legumes, o queijo, os ovos e, claro, o peixe.” E, para mostrar o grande valor que a pesca fluvial tinha para a vida das populações e a economia daqueles tempos, refere como exemplo os privilégios concedidos aos pescadores de Alhandra e Vila Franca. E conta como quando o rei Afonso V permaneceu em Santarém a sua preferência foi para quatro variedades de peixe – azevia, linguado, linguada e salmonetes -. “E por algumas moedas, alguém lhes tirou as escamas [tarefa de mulheres, as escamadeiras], preparando-os para o trajecto [acondicionados em canastas, seiras, golpelhas, cordas] em azémolas ou em barcas, até à cozinha régia.” Estas deliciosas e saborosas linhas encontram-se na dissertação da minha amiga Maria Manuela Catarino, (2000), Na margem direita do Baixo Tejo, paisagem rural e recursos alimentares (sécs. XIV e XV), Cascais, Ed. Patrimonia, entre as páginas 125 e 131; o mapa hipotético das margens do Rio Tejo entre Santarém e Alverca nos séculos XIV e XV está na página 20.
Mapa hipotético das margens do Rio Tejo entre Santarém e Alverca nos séculos XIV e XV
Quatro léguas ao nascente da vila de Torres Vedras, e cinco ao nor-nordeste de Lisboa, em lugar baixo, está fundada a vila de Alhandra, que D. Soeiro, bispo de Lisboa mandou povoar pelo ano de 1203, o qual lhe deu foral com grandes privilégios [porventura tão grandes para os donatários que o povo oprimido se queixou dos vexames, até que em 11 de Janeiro de 1480, o Cardeal D. Jorge da Costa fez com o senado da Câmara da Vila uma escritura, em que se restringiam e delimitavam as exageradas prerrogativas dos arcebispos - http://www.alhandra.net/], reinando em Portugal D. Sancho o primeiro. É banhada do rio Tejo, que a faz abundante de excelente peixe, especialmente as azevias, e é fértil de todos os frutos. Tem seiscentos e cinquenta vizinhos com uma paróquia dedicada a S. João Baptista, vigararia, que apresentam os Arcebispos de Lisboa, Casa de Misericórdia, Hospital e estas ermidas: Nossa Senhora da Ajuda, Nossa Senhora da Graça e Nossa Senhora da Guia.
É esta vila dos Arcebispos de Lisboa, aonde têm seu ouvidor, vereadores, escrivão da Câmara, um Procurador do concelho, Juiz dos Órfãos com seu escrivão, e mais oficiais. O seu termo tem estes lugares: Suserra com muitas quintas nobres, particularmente a de Pedro de Rochas de Azevedo, a qual tem uma ermida de São José de excelente arquitectura; a Deloucos [A-de-Loucos] com uma Igreja Paroquial, orago de São João dos Montes, com vigário e coadjutor; rende a vigararia trezentos mil réis, tem quinhentos e cinquenta vizinhos; a outra freguesia deste termo é da invocação de São Marcos de Calhandris [hoje Calhandriz], curado, e tem cem vizinhos. Estas duas freguesias estão no termo de Lisboa.”
Esta é uma leitura pessoal da referência a Alhandra num notável resumo de informações dos princípios do século XVIII: a Corografia [descrição geográfica de um território particular ou país com as suas características mais notáveis] portuguesa e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, com as notícias das fundações das cidades, vilas e lugares, que contem: varões ilustres, genealogias das familias nobres, fundações de conventos, catálogo dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edificios & outras curiosas observaçoens, Tomo III offerecido á sereníssima senhora D. Marianna de Áustria, rainha de Portugal. Author o P. António Carvalho da Costa, clerigo do habito de S. Pedro, Matemático, natural de Lisboa. Segunda edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, Rua Nova, n.º 65, 1869. A 1ª edição tem a dedicatória pessoal do autor à Rainha D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V e futura mãe de D. José, assinada a 15 de Janeiro de 1712 (mais de 150 anos antes da 2ª edição). Os desenhos floreados usados como separador são de mesmo documento.

Os nomes das coisas
Embora Alhandra me traga outras memórias como as Linhas de Torres Vedras construídas há 200 anos para travar a caminhada para Lisboa dos exércitos de Napoleão (foi o limite direito da 1ª Linha fortificada) o que despertou estes apontamentos foi a frase “É banhada do Rio Tejo que a faz abundante de excelente peixe, especialmente as azevias…”
Azevia é nome de doce tradicional da época de Natal e de Ano Novo em que o recheio tem grão de bico… mas aqui
apesar de o local ficar à beira Tejo, a Azevia é variedade de peixe do mar, da família das solhas (Solha lusitana na imagem de http://www.eol.org/),

que se encontra nas costas do Mar Mediterrâneo e do Oceano Atlântico entre as costas de Portugal, na Europa, e do Senegal, em África, mas que se adaptou a zonas com menos sal como o estuário dos rios que as marés diariamente renovam; assenta sobre o lado esquerdo em fundos calmos até cerca de 300 metros, tomando uma forma lisa ou achatada onde atinge os 30 a 40 cm ao mesmo tempo que o olho esquerdo migra para se juntar ao direito no lado superior. O Rio Tejo reúne condições que permitem a entrada e renovação da água salgada do mar muitos quilómetros para dentro da boca e por outro lado é também um meio de comunicação estimulante para o comércio e o transporte de pessoas e bens, sobretudo para mercados desde Santarém à capital.
Uma inventariação de 1552 do total de 1490 barcos e batéis que servem Lisboa a partir dos portos ao longo do rio desde Abrantes, refere que a localidades "Povos, Vila Franca de Xira e Alhandra" possuíam 60 (ver História de Portugal, volume 3, sob a direcção de José Mattoso, editada em 1993 pelo Círculo de Leitores, p. 334).
As azevias estão identificadas há muitos séculos e a pesca para os mercados de frescos como o da Ribeira Velha, em Lisboa, fazia-se nos estuários do Tejo e Sado.
Pormenor das bancadas do peixe fresco no mercado da Ribeira Velha, frente à Casa dos Bicos, num painel de azulejos do século XVIII (Arquivo particular de Marina Tavares Dias)A azevia pode ser pescada usando apenas minhoca como isco mas há documentos que mostram que desde a Idade Média a maior parte era apanhada com redes de tresmalho e de emalhar.
Podemos imaginar uma cena semelhante neste pormenor do Breviário da Condessa de Bertiandos, um belíssimo códice manuscrito iluminado português, do século XVI, oferecido à Academia das Ciências de Lisboa pela Condessa de Bertiandos, em 1933, e Bertiandos é uma pequena freguesia do Concelho de Ponte de Lima.
Para a conservação do peixe por mais tempo usavam-se técnicas ainda hoje muito importantes: fumagem, secagem e salga.Manuela Catarino recorda mentalidades do séculos XIV e XV: “Enquanto a caça cria um laço com a morte e é, desde logo masculina e viril, a pesca, mais ligada à água, fonte de vida e elemento feminino, é uma anticaça desprezada, no geral, pela nobreza.” (citando Mª Helena C. Coelho) e acrescenta: “Ao longo da Idade Média, as normas, mais ou menos restritivas que a religião impõe sobre o consumo alimentar, contribuem para a generalização de padrões de conduta, em que “comer magro” equivale a “comer peixe”. A não ingestão de carne, como acto de penitência, segundo os dias do calendário religioso implica o consumo de “substitutos”. Ganham, então, preponderância, os legumes, o queijo, os ovos e, claro, o peixe.” E, para mostrar o grande valor que a pesca fluvial tinha para a vida das populações e a economia daqueles tempos, refere como exemplo os privilégios concedidos aos pescadores de Alhandra e Vila Franca. E conta como quando o rei Afonso V permaneceu em Santarém a sua preferência foi para quatro variedades de peixe – azevia, linguado, linguada e salmonetes -. “E por algumas moedas, alguém lhes tirou as escamas [tarefa de mulheres, as escamadeiras], preparando-os para o trajecto [acondicionados em canastas, seiras, golpelhas, cordas] em azémolas ou em barcas, até à cozinha régia.” Estas deliciosas e saborosas linhas encontram-se na dissertação da minha amiga Maria Manuela Catarino, (2000), Na margem direita do Baixo Tejo, paisagem rural e recursos alimentares (sécs. XIV e XV), Cascais, Ed. Patrimonia, entre as páginas 125 e 131; o mapa hipotético das margens do Rio Tejo entre Santarém e Alverca nos séculos XIV e XV está na página 20.
Pormenor de azulejos com peixes numa das paredes na cozinha do Museu do Azulejo, no antigo Convento da Madre de Deus, em Lisboa, onde eu imagino uma azevia com os dois olhinhos ao cimo da cabeça, mas pode ser solha; porque não? É de família.
E para concluir esta viagem à volta de Alhandra, do Tejo (e negando as palavras de Alberto Caeiro no poema “Guardador de Rebanhos” afirmo que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia porque o Tejo é o rio que corre pela minha aldeia) e da Azevia falta-me acrescentar que o nome científico deste peixe do mar – Microchirus Azevia (Brito Capello, 1867) [ver a espécie de índice da classificação internacional dos seres vivos em EOL - Encyclopedia of life - http://www.eol.org/] – só foi classificado no século XIX pelo naturalista e biólogo marinho português Félix António de Brito Capelo (1828-1879) que nasceu, como os seus irmãos, e deles o mais conhecido é o Oficial da Marinha Hermenegildo Carlos de Brito Capello (1841-1917), no Castelo de Palmela onde seu pai era comandante.
O ano oficial da classificação da Azevia ficou assinalado como 1867 pois foi então que Félix António de Brito Capello publicou o “Catálogo dos peixes de Portugal que existem no Museu de Lisboa” em 2 artigos sucessivos do periódico da Academia das Ciências de Lisboa – Jornal do Sciências Mathemáticas, Physicas e Naturaes -, Lisboa, 1867, v. 1 (n.º 3, de Agosto), nas páginas 233 a 264 e que continua e conclui no número seguinte: v. 1 (n.º 4, de Dezembro), páginas: 307 a 313. Como tive acesso privilegiado a uma investigação ainda inédita de Catarina Madruga posso acrescentar o seguinte: O Museu a que se refere era o Museu de Lisboa da Escola Politécnica (que até 1858 estivera sob a tutela da Academia das Ciências de Lisboa) onde Brito Capello colaborou com o zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907). Em sua homenagem e por proposta do Conselho da Escola Politécnica a secção zoológica passou designar-se Museu José Vicente Barbosa du Bocage em 1905. O Anuário Comercial para 1910 identifica dezassete museus na cidade de Lisboa mas informa que o Museu Barbosa du Bocage é um dos que só abrem às quintas-feiras (porque era o dia da semana em que estes espaços não eram usados para as aulas práticas; um século antes já o Jardim Botânico da Ajuda, sob a tutela do Paço Real da Ajuda também abria ao público só às quintas-feiras) [cfr. Nova História de Portugal, XI, p 581]. Em 1912 passa a integrar, como um dos seus departamentos, o Museu Nacional de História Natural da recém-criada Universidade de Lisboa. Sofreu perdas muito significativas do grande incêndio na noite de 17 para 18 de Março de 1978. O MNHN, juntamente com o Museu da Ciência (criado em 1985), integram o projecto do Complexo Museológico da Politécnica ou "Museus da Politécnica".
E para concluir esta viagem à volta de Alhandra, do Tejo (e negando as palavras de Alberto Caeiro no poema “Guardador de Rebanhos” afirmo que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia porque o Tejo é o rio que corre pela minha aldeia) e da Azevia falta-me acrescentar que o nome científico deste peixe do mar – Microchirus Azevia (Brito Capello, 1867) [ver a espécie de índice da classificação internacional dos seres vivos em EOL - Encyclopedia of life - http://www.eol.org/] – só foi classificado no século XIX pelo naturalista e biólogo marinho português Félix António de Brito Capelo (1828-1879) que nasceu, como os seus irmãos, e deles o mais conhecido é o Oficial da Marinha Hermenegildo Carlos de Brito Capello (1841-1917), no Castelo de Palmela onde seu pai era comandante.
O ano oficial da classificação da Azevia ficou assinalado como 1867 pois foi então que Félix António de Brito Capello publicou o “Catálogo dos peixes de Portugal que existem no Museu de Lisboa” em 2 artigos sucessivos do periódico da Academia das Ciências de Lisboa – Jornal do Sciências Mathemáticas, Physicas e Naturaes -, Lisboa, 1867, v. 1 (n.º 3, de Agosto), nas páginas 233 a 264 e que continua e conclui no número seguinte: v. 1 (n.º 4, de Dezembro), páginas: 307 a 313. Como tive acesso privilegiado a uma investigação ainda inédita de Catarina Madruga posso acrescentar o seguinte: O Museu a que se refere era o Museu de Lisboa da Escola Politécnica (que até 1858 estivera sob a tutela da Academia das Ciências de Lisboa) onde Brito Capello colaborou com o zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907). Em sua homenagem e por proposta do Conselho da Escola Politécnica a secção zoológica passou designar-se Museu José Vicente Barbosa du Bocage em 1905. O Anuário Comercial para 1910 identifica dezassete museus na cidade de Lisboa mas informa que o Museu Barbosa du Bocage é um dos que só abrem às quintas-feiras (porque era o dia da semana em que estes espaços não eram usados para as aulas práticas; um século antes já o Jardim Botânico da Ajuda, sob a tutela do Paço Real da Ajuda também abria ao público só às quintas-feiras) [cfr. Nova História de Portugal, XI, p 581]. Em 1912 passa a integrar, como um dos seus departamentos, o Museu Nacional de História Natural da recém-criada Universidade de Lisboa. Sofreu perdas muito significativas do grande incêndio na noite de 17 para 18 de Março de 1978. O MNHN, juntamente com o Museu da Ciência (criado em 1985), integram o projecto do Complexo Museológico da Politécnica ou "Museus da Politécnica".
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Substantivos
É sempre agradável saber para mais tarde recordar e mais ainda quando se constata que o mundo já estava a mudar muito antes de eu nascer.
Eis o que encontrei num notável (pela clareza da apresentação e descrição metódica que alia o conhecimento abstracto à prática e experimentação) manual escolar ilustrado para a V Classe do “ensino secundário oficial”:
Em 1931 o gás dos pântanos que já existia há milhões de anos e continuará a existir dizia-se e escrevia-se a metana ou a formena …
em 1951 já era o metano ou o formeno como ainda hoje asseguram os dicionários.

A imagem do texto é do livro Elementos de Química do professor Achilles Machado da Faculdade de Ciências de Lisboa, editado em Lisboa pela Imprensa Nacional, em 1931, na página 334, quando inicia o estudo do capítulo da Química que trata dos compostos orgânicos “que são, por exemplo, pouco resistentes à acção do calor, ao contrário com o que sucede a um grande número de compostos minerais”. E introduz o assunto situando-o: “como todas as substâncias orgânicas têm um elemento em comum, o carbono, também se pode dizer que o objecto da Química Orgânica é o estudo dos compostos do carbono.” [Os termos em itálico estão assim também no documento original]
Eis o que encontrei num notável (pela clareza da apresentação e descrição metódica que alia o conhecimento abstracto à prática e experimentação) manual escolar ilustrado para a V Classe do “ensino secundário oficial”:
Em 1931 o gás dos pântanos que já existia há milhões de anos e continuará a existir dizia-se e escrevia-se a metana ou a formena …
em 1951 já era o metano ou o formeno como ainda hoje asseguram os dicionários.

A imagem do texto é do livro Elementos de Química do professor Achilles Machado da Faculdade de Ciências de Lisboa, editado em Lisboa pela Imprensa Nacional, em 1931, na página 334, quando inicia o estudo do capítulo da Química que trata dos compostos orgânicos “que são, por exemplo, pouco resistentes à acção do calor, ao contrário com o que sucede a um grande número de compostos minerais”. E introduz o assunto situando-o: “como todas as substâncias orgânicas têm um elemento em comum, o carbono, também se pode dizer que o objecto da Química Orgânica é o estudo dos compostos do carbono.” [Os termos em itálico estão assim também no documento original]
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